domingo, 19 de maio de 2013

17 de maio: últimas horas em Florença


Tentamos levantar cedo pras últimas horas em Firenze, mas de atrações, só foi possível mesmo rever o Duomo por dentro e o impressionante Battistero.



O Duomo estava lotado de gente como eu nunca tinha visto e nem adiantava muito aquela gravação de 10 em 10 minutos “shhhhhh... silenzio, per favore! Shhhhhhh... Shhhhhhh... silence, please! Shhhhhhh...”, pois era uma barulheira só.

No Battistero, sentamos e ficamos admirando os mosaicos milenares e maldizendo um casal brasileiro mal educado que falava alto pra burro, brigando sobre decisões do roteiro. Lembrei de uma figura em 2011, que gritava pelo centro histórico de Firenze “RodrigoooOOOOOOO, peraí! RodrigoooOOOOOO, eu quero entrar numa loja aqui, pô!”. Outra lembrança nefasta foi a dos dois casais que estavam no dia anterior, em Santa Croce, tirando fotos sorridentes em frente a um túmulo super sombrio, mas que depois passaram por nós falando alto “... hahaha, pois é, esses japoneses! Acho que o primeiro presente que ganha um bebê japonês é uma máquina fotográfica”.

Na saída do Batisttero, chovia horrores! Aliás, toda a sorte que demos com o clima de Roma foi azarado com o clima de Florença. A ideia inicial, de fazer um piquenique nos jardins do Boboli teve de ser abortado justamente por causa do tempo.

O chão era uma sucessão de poças enormes e o sapato do Eduardo não estava dando conta de tanta água. Então, pouco antes de encontrarmos a Nandi, demos uma voltinha nos arredores de San Lorenzo pra compra de um calçado mais resistente à chuva. Ponto pra mim que resisti novamente a dar uma paradinha estratégica nas bancas de echarpes da feira, que ficavam bem em frente.

Encontramos Nandi e Nelson que nos esperavam pra despedida, bem em frente à Opera Del Duomo e fomos almoçar. O Eduardo comeu uma pizza al taglio e eu escolhi um panino. Nenhum dos dois estava muito bom, infelizmente, mas compensamos com ótimos gelatos próximos à Ponte Vecchio. No caminho, vi cerejas lindas e comentei que ainda não tinha provado nenhuma e que tinha de resolver isso logo. Enquanto estávamos na gelateria, Nelson me apareceu com um pacote das minhas frutinhas preferidas. E olhe que a Nandi já havia trazido um de meus chocolates preferidos, com recheio de laranja. Não são incríveis meus amigos florentinos?!



Retornamos ao Bed and Breakfast todos juntos pra buscar as malas, pois Nandi e Nelson teriam de ir a Santa Maria Novella  pra comprar algumas passagens. Ao conhecerem o Il Magnifico, também adoraram e comentaram com Letizia que as pessoas sempre pedem indicações e que eles recomendariam o B&B da próxima vez. Ela aproveitou pra comentar que queria ter aulas de Português e a Nandi respondeu que já havia dado aulas do idioma por muito tempo, mas que havia parado por medo de segurança, pois fazia isso em casa e a cidade começou a ficar um pouco perigosa. Trocaram contatos, então, e a Letizia pediu nosso táxi.

Chegamos com antecedência perfeita em Santa Maria Novella, pro trem de 14:30. Nandi aproveitou pra listar tudo o que o Eduardo ainda não tinha visto e reforçamos que desejávamos retornar muitas vezes, ainda mais agora que ele havia feito novos amigos.

Muitos abraços, lágrimas e risadas depois, subimos no trem com destino a Veneza, com um sentimento misto de saudades antecipadas e a ansiedade por estar naquela cidade igualmente linda e romântica.

16 de maio: Ah, Firenze!


No dia anterior, já havíamos combinado de encontrar a Nandi na Chiesa Santa Croce e suas inúmeras obras e sepulturas ilustres, como as de Michelangelo, Galileu e Maquiavel.

Acabamos marcando um horário no fim da manhã e, como o tempo não estava muito bom, decidimos ir a outro museu antes: a maravilhosa Capela dos Medici. Lá, pude conferir novamente a espetacular Noite e Dia, além de Amanhecer e Anoitecer, ambas de Michelangelo.

Consegui passar pela feira di San Lorenzo sem comprar uma única echarpe sequer (Brava!!) e fomos pra Santa Croce, onde a Nandi já nos esperava na Piazza, próximo à estátua de Dante.

Mesmo já tendo a melhor guia de todas, resolvemos complementar o riquíssimo passeio com as explicações do audioguia, que foi alugado pelo Eduardo. Quem o atendeu na recepção foi uma italiana alta, de olhos azuis e sorridente demais pro meu gosto!

Entramos na minha igreja preferida de Florença e nos detivemos em cada obra, onde os três puderam ouvir a narração do audioguia: Eduardo com o fone principal e eu e Nandi, cada uma com uma das orelhas do headphone do iPhone plugado no original. Depois, obviamente, nossa guia principal complementava com informações ainda mais importantes.






A parte mais interessante, além de ver os monumentos onde repousam os restos mortais de alguns dos maiores ícones do Renascimento, foi ver as capelas de Giotto e seus discípulos. Santa Croce é uma igreja franciscana e Giotto um dos artistas preferidos dessa Ordem, tendo inclusive afrescado toda a Basílica de São Francisco de Assis. É muito impressionante ver, como diz a Nandi, o início da arte genuinamente ocidental, nascendo nas obras desse mestre que assombrou o século XIV e marcou a História da Arte para sempre.



Outro destaque de Santa Croce é o púlpito espetacular de Giovanni da Maiano que, conforme dito no audioguia, não trazia as tradicionais escadas de acesso a arrematar sua composição. Para que lhe fosse dada máxima leveza, o arquiteto criou escadas dentro da coluna que o suportava, com uma porta de entrada na parte de trás do púlpito. O trabalho é de uma riqueza de detalhes e, ao mesmo tempo, uma delicadeza inacreditáveis.





Também vimos a Anunciação de Donatello, feito em pedra serena. Apesar de lindo, é de um rigor de causar espanto ao lembrarmos que esse é o mesmo autor da minha querida Madalena,feita no século XIV e, até hoje, tão moderna e ousada. No entanto, a Nandi explicou que aquela era uma obra do início da carreira do mestre, enquanto a obra que brilha no Opera Del Duomo representa uma fase posterior e mais arrojada do artista.



Vimos também o museu e as fotos que mostram o estrago feito na enchente de 1966, quando a água atingiu a impressionante altura de 5 metros e destruiu inúmeras obras em toda a cidade. Nandi contou que os religiosos, no afã de tentar salvar algumas pinturas, cortaram-nas das molduras e enrolaram-nas, levando-as pra patamares mais altos, a salvo da água. No entanto, imaginando que dessa forma as protegeriam melhor da chuva, colocaram as faces pintadas voltadas pra dentro. O craquelamento que isso provocou, aliado à umidade da chuva causou danos muitas vezes irreversíveis.

Despedimo-nos de nossa amiga guia pra encontrá-la e ao Nelson mais tarde, quando todos jantaríamos uma pizza em comemoração ao seu aniversário, que seria no dia seguinte.




Eu e Eduardo partimos em direção ao Il Magnifico, em cujas proximidades pretendíamos almoçar e depois seguir a Piazzale Michelangelo e San Miniato al Monte, que ficava naquela mesma margem do rio Arno.

Depois do almoço, feito no Bar Negrone, resolvemos pegar um casaco pro Eduardo no B&B. Foi a sorte, pois desandou uma chuva forte, que nos fez esperar quase duas horas até sairmos novamente. Aproveitamos pra dar uma descansada,pois o dia anterior tinha sido puxado e ainda tínhamos muito pela frente. Acordamos com um céu mais limpo e caminho livre pra Piazzale Michelangelo.

Andamos no simpático trajeto do rio até a praça, brincando de adivinhar quem eram nossos compatriotas antes que ouvíssemos o Português. Era fácil! As mulheres de cabelos longos e lisos, quase sempre com um dos itens: legging e tênis, casaco de couro e lenço de seda. Os homens, quase sempre, com os sapatênis vendidos na Mr. Cat, calça jeans e jaqueta. Parece muito banal descrevendo assim, mas sei lá por que, é muito fácil de sacar a nacionalidade brasileira.

Chegando ao topo, pudemos admirar a mais linda vista da cidade. Depois, fomos até San Miniato al Monte, que fica muito próximo e nova chuva desandou. Foi o tempo de visitarmos aquela que é a mais antiga igreja de Firenze, em seu estilo românico, com três patamares. Infelizmente, não tivemos a sorte de assistir aos cantos gregorianos que pude apreciar em 2011. Partimos, então, para o jantar comemorativo de aniversário da nossa amiga.







Encontramos Nandi e Nelson na Piazza della Signoria e acabamos decidindo voltar à outra margem do rio, na pizzeria Antico Santo Espirito, onde eu havia comido duas vezes em 2011 e me recordava da excelente pizza.

A praça de Santo Espirito estava repleta de gente, mas apesar do restaurante estar super cheio, conseguimos lugar facilmente. Foi uma comemoração deliciosa e merecida para a querida Nandi, com deliciosas pizzas, vinho pra mim e Nelson (o da casa estava mais gostoso do que o Chianti que pedimos primeiro), cerveja pra Eduardo e Nandi, além de licores e, obviamente, muita boa conversa.




Andamos com nossos amigos até o ponto de ônibus, cruzando novamente ida e volta o rio Arno (acho que poderia fazê-lo umas mil vezes sem cansar, de tão lindo aquele lugar!), até que paramos pra admirar o Porccelino. Dizem que ao passar a mão no focinho do bicho, volta-se a Firenze, mas eu preferi manter minha própria tradição. Nunca fiz isso porque sempre está lotado de gente. Consegui voltar duas vezes e quero retornar muitas outras mais, portanto, nada de carinho no focinho do javali, mesmo estando vazio naquela noite!



De volta ao B&B, rápida arrumação de malas, pois, outro momento melancólico se aproximava. No dia seguinte, arrivederci, Firenze!

15 de maio: chegada Florença


Assim que chegamos na estação de Santa Maria Novella, lembrei orgulhosa de onde deveríamos pegar o ônibus e fui dando instruções toda cheia de mim, pois seria uma das poucas cidades que conheceria melhor do que o Eduardo.

Depois de alguma espera, chegou nosso ônibus, o 23B. Um lugar desconfortável em pé foi o máximo que conseguimos, mas logo tivemos de ir pra outro carro, pois o motorista avisou que aquele não seguiria viagem. Entramos no seguinte, que estava mais cheio e mais desconfortável do que o anterior. Sofremos num percurso longo, que dava a volta em meia Firenze, até chegar ao ponto em que deveríamos saltar, o da Ponte Alla Grazie, que nem era tão longe assim. As instruções não informavam o sentido que deveríamos andar na rua e, como Murphy é senhor onipotente, principalmente em viagens, escolhemos o errado. Depois de andarmos um bocado, vimos que a numeração estava estranha e retornamos ao sentido inverso, até chegarmos a um simpático jardim, onde se localizava o prédio do Il Magnifico Bed and Breakfast.




Tocamos duas vezes a campainha e uma mocinha falando italiano com um sotaque que o Eduardo logo identificou como oriental abriu o portão pra nós. Subimos 3 “abondantes” lances de escada com malas e chegamos ao simpaticíssimo local, sendo recebidos por Letizia, que é o nome ocidental de nossa hostess chinesa, Wei Wang.

Ela nos acolheu de uma forma muito cortês e eficiente, mas logo relaxou o tom formal, incluindo algumas palavras em Português. Acrescentou que não sabia praticamente nada do idioma, mas seu namorado, Allan, que cuidava do Bed and Breakfast com ela, falava relativamente bem.

Letizia nos levou ao nosso quarto. Era uma ampla “camara” com banheiro, de decoração muito acolhedora. De cara, adoramos o lugar e Letizia pareceu muito satisfeita com nossos elogios. Ela nos mostrou uma garrafa de vinho Chianti, típico da Toscana, como recepção de boas vindas. Nem preciso dizer que, nessa hora, o Il Magnifico fez ainda mais jus ao nome.





Depois que deixamos as malas e relaxamos um pouco, Letizia nos mostrou a cozinha do Bed and Breakfast, explicando como funcionava a máquina de café ou cappuccino e acrescentando que ficássemos à vontade pra nos servirmos quantas vezes quiséssemos. Em seguida, deu-nos um mapa, onde fez várias indicações de restaurantes próximos e atrações importantes.

Saímos pra ganhar a cidade, pois nossos amigos, os 3 gatti, estariam no albergue às 20:15 pra nos apanhar pra um jantar na casa deles. Escolhemos a Ponte Vecchio pra ir até o centro e, no caminho, paramos para nosso primeiro gelato florentino. Qual não foi nossa surpresa quando vimos que a dona do local era brasileira e seu sorvete, um autêntico gelato italiano, foi dos melhores que provamos nesta viagem.



Seguimos em direção à Piazza della Signoria, onde paramos pra algumas fotos do Pallazzo Vecchio e da Loggia della Signoria. Logo partimos pro museu Opera Del Duomo, meu preferido, onde poderia rever minhas obras mais queridas: a Madalena de Donatello, uma linda Pietà de Michelangelo e A Cantoria de Lucca Della Robia.

Fiquei um pouco chateada porque a Madalena foi tirada do local em que a vi em 2010 e 2011, sendo levada pra mesma sala onde está A Cantoria. Isso tirou um pouco de peso pra minha querida, que tem um significado triste e sofrido, perdendo um pouco de impacto, em meio às muitas outras esculturas que agora a estão rodeando. Por outro lado, o museu agora ganhou uma obra de impacto, que é o original da porta do Paraíso, de Guiberti, pois apenas sua cópia pode ser vista no Battistero, para onde foi projetada.







Vimos atentamente a Pietà e todos os detalhes de acabamento e não acabamento feitos pelo mestre Michelangelo. Lemos como a escultura havia sido feita pra adornar sua sepultura, inclusive, retratando o rosto de Nicodemus com suas próprias feições. Infelizmente, problemas no mármore fizeram com que ele quebrasse algumas partes e desistisse da obra.

Os outros museus já estavam fechados à hora em que saímos. Além disso, estávamos bastante cansados e decidimos retornar ao Bed and Breakfast pra dar uma relaxada antes do jantar com nossos amigos. No caminho, paradinha estratégica pra um piccolo pedaço de pizza cortada e depois num supermercado, onde compramos um dos vinhos que levaríamos (o outro foi o Chianti presenteado por Letizia), chocolates e panforte para a sobremesa (um doce divino de figo e amêndoas).

Às 20:15, em pontualidade europeia, chegava nosso amigo Nelson pra nos buscar. Que alegria revê-lo e poder apresentar o Eduardo que, tinha certeza, iria se dar super bem com ele, Nandi e Andrea.

O transporte até Coverciamo, bairro onde os 3 gatti moram, não era muito fácil, de maneira que andamos até o outro lado do rio e pegamos dois ônibus, levando o “enorme” tempo de 25 minutos até chegarmos à Via Rajna.

Finalmente, depois de 2 anos, revia minha querida amiga Nandi e seu filho Andrea. Depois de 15 minutos ainda quebrando o gelo com o Eduardo, os dois, mais o Nelson, já haviam engrenado um papo mais do que animado sobre Artes e o que veríamos ainda em viagem.

Jantamos uma belíssima salada caprese, seguida de uma divina carne assada e batatas coradas feitas pelo Nelson, acompanhados de arroz unidos venceremos, feito em perfecta parceria entre mim e Nandi. De sobremesa, panforte e sorvete de Amarenna.

Saímos de lá por volta das 2 da manhã, depois de muito parlare, manggiare e quase 3 garrafas de vinho italiano.

Ah, Firenze!

15 de maio: últimas horas em Roma


Acordamos com um aperto pela ideia de deixar Roma. Que cidade incrível! Pra onde se olha, há história e arte. Basta virar uma esquina pra se deparar com um legado deixado há 2 mil anos, cujos traços não apenas se mantiveram nas ruínas, mas se propagaram por meio de sua forte influência na estética e no pensamento ocidental. Mas, ao menos, estávamos indo pra uma cidade igualmente incrível, que é Florença, e onde iríamos encontrar-nos com amigos muito queridos, os 3 gatti: Nandi, Nelson e Andrea.

Ainda tínhamos algumas horas antes de pegarmos nosso trem, que sairia da Termini, até Santa Maria Novella. O tempo estava nublado e frio, mas depois de 4 dias de clima impecável, não podíamos nos queixar. Como não queríamos correr, decidimos ir apenas ao Pallazzo Doria Pamphili, que ficava a 10 minutos do Night and Day e que já estava fechado à visitação, no dia em que chegamos. Se possível, tentaríamos também dar nova passada na Piazza di Spagna. Quando fomos na primeira vez, as escadarias estavam lotadas, dada a apresentação de uma banda dos carabinieri.

No caminho, fizemos uma parada estratégica para a primeira compra da viagem. Não somos turistas brasileiros típicos, que estão sempre cheios de bolsas de griffes italianas, mas não resistimos completamente. Desde o planejamento de viagem, eu havia me programado pra comprar armações de óculos na Itália, pois o Eduardo absolutamente abomina os meus e, depois de 3 de estrada, além do estilo já estar bastante ultrapassado, eles já estão pedindo um certo arrego.

No dia anterior, havíamos percebido uma ótica na Via Del Tritone, a caminho do Night and Day. O GPS do Eduardo apitou e encontramos a loja rapidinho, no caminho do Doria Pamphili. Experimentei umas 4 armações apenas, pois já na segunda, me encantei com uns óculos Tom Ford enormes, que fazem meu rosto quadrado parecer pequenininho. Assim que os coloquei, o atendente, que não era nada caloroso, acenou com a cabeça, dando o primeiro sinal de aprovação e dizendo “questo é molto bello”. O Eduardo também gostou e, pra quebrar a minha insegurança pelo fato de serem enormes e tão contrastantes aos meus atuais (pequenos, de formato retangular), me convenceu dizendo que estavam parecidos com o estilo que as italianas usam, conforme vimos reparando na viagem. Foi suficiente.

Saí toda prosa com a minha compra e seguimos em direção ao Pallazzo, onde veríamos o famoso retrato de Velasquez do Papa Inocêncio X, que era da família Pamphilli. No entanto, o museu se revelou muito mais interessante ainda, com obras de diversos outros mestres, salas lindíssimas e narrações no audioguia supostamente feitas por um descendente da família Pamphilli. Ocorre que o museu é de propriedade dessa família, que abriu o belíssimo espaço e o acervo inacreditável ao público. Isso deu um caráter intimista à narração, que trazia comentários curiosos como o do piso de determinado salão ser feito de uma pedra especial, que necessitava de todo um cuidado, atualmente feito por máquinas, mas que na infância do narrador, era feito manualmente. Segundo ele, sua mãe enlouquecia, quando ele e sua irmã, passavam por esse piso usando rollerblade. Logo imaginei duas pestinhas italianas correndo de patins pelos salões daquele palácio de sonhos, com uma governanta ao estilo italiana ralhando logo atrás.

As pinturas ocupavam a parede da altura de um metro e meio até quase o teto, uma após a outra, ao que o narrador explicou ser um estilo da época. Valorizava-se o conjunto e não cada obra em particular, como hoje é feito. Ouvindo esse comentário, lembrei-me do Palácio Pitti, em Florença, que tem exatamente esse tipo de disposição. Por esse moitvo, às vezes, é até difícil encontrar um quadro específico pelo qual esteja se procurando, como aconteceu com o Il Amor Dormente do Caravvaggio, em 2010, que só consegui encontrar com a ajuda da Nandi, em 2011. Mas, peraí, eu ainda estou em Roma!

Voltando ao Doria Pamphilli, logo nas primeiras galerias, era possível ver um busto em mármore do Inocêncio X, feito pelo Alessandro Algardi, que o Eduardo me explicou ser o grande rival do Bernini. Um pouco mais à frente, vimos um busto do próprio Bernini e ouvimos no audioguia a história interessante a seu respeito. Bernini era associado ao Papa anterior, Urbano VIII, de quem era um dos artistas preferidos. O Papa sucessor, Inocêncio X, era seu inimigo e, por esse motivo, não solicitava muito os serviços do escultor. Assim, ao receber a encomenda do busto, Bernini esmerou-se ao extremo, conforme explicado na narração que reproduzo a seguir, com minhas palavras.

Ao que parece, por algum problema no mármore, a estátua teria se quebrado. A rachadura é facilmente perceptível, bem na base do rosto. O que seria uma catástrofe pra qualquer outro escultor, não parece ter tirado o sono do mestre Bernini, que esculpiu, então, uma segunda versão da obra em mármore. Ela podia ser conferida numa galeria exclusiva, ao lado do extraordinário retrato de Velasquez. Obviamente, eu e Eduardo retornamos à primeira galeria pra vermos o primeiro busto e conferimos que o segundo era melhor, com uma expressão mais interessante e com uma postura mais altiva, já que o “acidentado” parecia estar um pouco curvado. Ambos tinham um detalhe que suavizava a estátua, lhe conferindo uma noção ainda mais real. Um dos botões da vestimenta do Papa parecia estar imparcialmente fechado, como se fosse abrir a qualquer momento.  

Outro ponto muito interessante a respeito dessa história foi que, segundo a narração, qualquer outro artista teria levado meses pra refazer o trabalho danificado, ao que Bernini gastou apenas uma semana.  Acredita-se, portanto, que o suposto acidente com o mármore tenha sido, na verdade, o próprio escultor, que teria quebrado o primeiro busto, apenas pra provar seu virtuosismo.

O retrato de Velasquez, por sua vez, merece também um destaque à parte. Não sem razão, é a grande atração do Pallazzo Doria Pamphilli e foi feito pelo mestre espanhol em sua segunda visita à Itália. Esqueça o semblante bondoso e acolhedor de João Paulo II, as tentativas de sorrisos simpáticos por Benedeto XVI ou a expressão boa-praça do nosso atual Papa Francesco. Inocêncio X é a severidade em pessoa. Em pessoa mesmo, porque é essa a impressão que se tem ao mirar o retrato de Velasquez.

Se temos essa noção agora, na época, o impacto não deve ter sido diferente, pois depois de concluída a obra, foi feito o comentário famoso por parte do modelo, descrito na legenda do quadro, “É troppo vero!”, ou seja, “É verdadeiro demais”. Pelo visto, Inocêncio X não curtiu muito a realidade de sua dramática tradução em tintas.

No caminho para a Piazza di Spagna, ainda passamos pela Coluna de Adriano e atravessamos pela última vez (nesta viagem, que fique claro) as confusas ruas de Roma.





Subimos as escadarias e ficamos contemplando um pouco a vista até que o horário não nos permitiu mais. Seguimos apressados, mal conseguindo admirar os prédios interessantes, como este a seguir, onde a porta de entrada parece levar para a garganta de um gigante.



Chegamos a tempo de comer uma pizza al taglio do lado do Night and Day, num restaurante que o Eduardo evitou durante os 5 dias, por achar que era uma mistureba de pratos, mas que acabou nos servindo a melhor pizza cortada de todas.

Despedimos da Monica prometendo breve retorno a Roma, ao Night and Day e pegamos as malas, rumo à estação de metrô Barberini e à Termini.

Arrivederci, Roma!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

14 de maio: penúltimo dia em Roma


Depois de um dia iniciado às 5 da manhã, que se seguiu com quase 20 horas de muita atividade (sendo que 7 delas passadas num trem sacolejante), concluído com 2 generosos pedaços de pizza al taglio e meia garrafa de vinho tinto, minha insônia foi curada. Desliguei assim que pousei a cabeça no travesseiro e dormi profundamente por cerca de 8 horas.

Na manhã seguinte, depois de um breve relato à Monica sobre o dia anterior, partimos pra um dos passeios obrigatórios de Roma: Coliseu e Forum Romano. Optamos pelo metrô, pois apesar de ambos adorarmos caminhar, queríamos aproveitar o máximo de sol nas atrações. Entramos na Piazza Barberini e fomos até Termini pela Linha A. Lá, trocamos pela Linha B até a estação Colosseo.

Lembrei-me de quando, em 2011, minha amiga Rose havia sugerido que eu fosse ao Coliseu de metrô. Falou como era impressionante, sair da estação e dar de cara com aquele monumento grandioso. Muito sábia, como sempre, a Rose.



 Era outro dia típico de Primavera, o que tornou o cenário ainda mais estonteante, contrastando a cor do mármore antigo, com a terra, o verde das árvores e o azul irretocável do céu. O sol estava bem forte e quente, mas era só chegar numa sombrinha pra refrescar imediatamente. Uma delícia!





Alugamos audioguias e seguimos o roteiro proposto, observando os locais onde os senadores e o Imperador ficavam, além da plebe, absolutamente segregada por castas. Assim como hoje, os locais mais nobres ficavam mais próximos à arena, decrescendo em ordem de importância ao passo em que se subia os patamares.





Vimos as galerias, antes subterrâneas e atualmente expostas, onde eram guardados os animais e por onde muitos gladiadores ascendiam, numa espécie de elevador. Soubemos, também, que essas figuras que povoam nosso imaginário se apresentavam numa média de 2 lutas por ano e viviam até, em média, seus 30 anos. Eram escravos, mas chegando até um determinado número de lutas, ganhavam a liberdade. Curiosamente, alguns homens livres se voluntariavam ao risco de morrer lutando na arena, apenas pela simples possibilidade de ganhar a fama associada ao ato “corajoso”.

Outras informações passadas eram mais comuns, como o fato de que o duelo só terminava quando um dos oponentes tivesse morrido, ou muito ferido. Nesse caso,o imperador determinava se a execução iria até o fim, ou se a vida do derrotado seria poupada. Nesse ponto, o audioguia acrescentou a curiosidade de que os corpos dos gladiadores supostamente mortos eram tocados com ferro em brasa, de forma a desmotivar possíveis fingimentos.

Vimos também a cruz destinada aos cristãos perseguidos e mortos, embora se saiba hoje que dificilmente houve esse tipo de execução no Coliseu. Acredita-se, atualmente, que isso tenha acontecido no Circo Massimo.

Depois, partimos pro Fórum Romano, mas antes resolvemos fazer uma estratégica parada para pizza al taglio com cerveja italiana. Atravessamos a Via do Forum e escolhemos um dos muitos bares da região. Depois, um gelato de Amarenna!



No Forum, não conseguimos pegar o audioguia que, segundo a atendente, já tinha encerrado. Uma pena! Tivemos de nos contentar com nosso Guia da Folha, que só informava os nomes dos principais templos e edifícios, sem dar grandes informações.











Ficamos sentados numa pedra de mármore milenar, admirando as ruínas daquilo que já foi um império poderosíssimo. A brincadeira era tentar reformular mentalmente as construções, a partir de suas bases e colunas. Mas, quando voltamos pro B&B, o Eduardo encontrou algumas animações bem interessantes que têm essa proposta. Aí segue uma, pra quem tiver interesse...


Saímos do Fórum por volta de 18h, pois nossa intenção era ver o Moisés de Michelangelo, que ficava na Igreja de San Pietro in Vincole, na área do Coliseu e assim fizemos. A igreja não estava muito cheia, de forma que pudemos admirar bem de perto a escultura.

Recordei o artigo de Freud sobre essa obra, que me foi emprestado pelo meu pai no ano passado. No texto, o pai da psicanálise analisa cada um dos significados possíveis da estátua, fazendo crer que Michelangelo tentara retratar o momento em que, com as tábuas dos 10 Mandamentos nos braços, Moisés estaria se dando conta da festa pagã em curso pelo seu povo, ao adorarem um animal de ouro, o que iria provocar um ataque de fúria de sua parte.




Vimos também a suposta relíquia que foi o motivo da construção da Igreja. As correntes que teriam algemado São Pedro, enquanto esteve prisioneiro, e que teriam tido suas duas partes separadas e depois reunidas, repousavam num relicário bem ao centro da nave, numa área mais baixa, acessível por pequenas escadas.



Depois, caminhamos pelo lindo anoitecer de Roma, passando pelo Teatro de Marcellus e pela Coluna de Trajano para depois cruzarmos o rio Tibre. Nossa intenção era passer e jantar no charmoso bairro de Trastevere. Ainda passamos pela fachada da linda igreja de Santa Maria de Trastevere, mas já era noite e ela estava fechada.






Procuramos as duas trattorias indicadas pela Monica, que ficavam ambas na mesma rua. Optamos pela Rugatino e lá comemos um penne alla putanesca de primo e eu comi um frango com molho de tomate e legumes grelhados de secondo, enquanto o Eduardo foi de pesce spada com batatas fritas. Bebemos vinho tinto da casa e água gasata pra acompanhar e deixamos a sobremesa por conta de um gelato de pistacchio numa sorveteria próxima.




A aventura gastronômica terminou por volta de 22h, quando retornamos ao Night and Day, ainda passando pra ver a Fontana di Trevi à noite. Estava tão cheia quanto de dia e tão bonita também.

Chegamos no quarto e tentamos ir deitar o mais rapidamente possível pra não dormirmos muito tarde, pois o dia seguinte traria nossa última manhã em Roma, pois partiríamos pra Florença no trem de 13:55.

Estava quase terminando nossa deliciosa passagem em Roma. Que aperto no coração!

Quase arrivederci, cidade eterna!